domingo, 31 de julho de 2011

Jairo Cesar Attademo - 50 anos.wmv - nem sei como agradecer tanta emoção.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quebec - há lugares que não se consegue descrever

Pequena amostra da arquitetura de Quebec. A capital da província canadense de mesmo nome é um primor em vários sentidos. Não dá para comparar com coisa alguma, principalmente a educação do povo na preservação e no uso adequado do que é belo.

sábado, 23 de julho de 2011

CASAMENTO EM PERIGO

Um dia me meti a fazer teatro. Não digo que foi ruim, porque  de tudo se pode tirar proveito, até de clichês feito esse.  
Culpado: meu primo Jair, inteligente o suficiente para ser neurocirurgião e fazer teatro por amor à arte. Já eu nunca abri a cabeça de ninguém, apesar da vontade de, algumas vezes, fazer isso menos tecnicamente.
No final dos anos setenta, assisti à trupe dele atuando e gostei. Era uma peça engraçada e tinha umas meninas bem apanhadinhas no elenco. Quando me convidou para ensaiar um texto seu, fui, para aprender  algumas técnicas que uso até hoje para azar dos que me aturam.
A peça era sobre um casal em crise. Fiz um personagem cafajeste, doido pra pegar a mulher do protagonista.
Tinha 16 anos. Pintei um bigodinho ridículo com sei lá que tinta,  emplastei o cabelo com sei lá que tipo de meleca e me enfiei num terno sei lá de quem. Assim compus o personagem. Conseguimos estrear depois de muita divulgação colando cartazes nos muros da cidade, usando um grude horroroso de polvilho.
Na época, trabalhava numa gráfica e consegui um patrocínio para imprimir os cartazes. Saímos pela vida colando papel e arrancando alguns outros de um circo que estrearia na mesma data.  Ah, tenha paciência... a cidade não tinha um teatro há sei lá quantos anos e logo em nossa estreia teríamos de competir com um circo?
Arrancamos todos os cartazes que encontramos  até dar de cara com os delicados rapazes que os colavam. O mais franzino era aquele que dava uma gravata no leão. Os demais eram apenas trapezistas e tratadores de elefantes.  Acho que nunca corri tanto na vida. Cheguei a ver minha sombra me ultrapassando. Meu primo? Desapareceu como um ninja. Poderia arrumar emprego de mágico no concorrente, tal sua destreza em escafeder-se com  baldes de grude e  pilhas de cartazes.
Revestimos o que pudemos com nossos folhetos.  Todo muro da cidade tinha material nosso. Claro que, de alguns, tivemos de retirar sob pena de ir parar na cadeia, sabem como são as propriedades particulares, costumam ter donos mal humorados.
A época era de ditadura, tudo censurado.  Nossa peça era uma comédia em dois atos, sem pretensão política, puro entretenimento. Pelo menos é isso o que eu acho eu até hoje. Com muita negociação, conseguimos alugar o anfiteatro de um colégio de freiras. Claro, elas quiseram saber do que se tratava. Leram o texto, gostaram e liberaram.
Nosso grupo tinha até administradora de sala, que, quando o espetáculo começou, trancou a porta e mais ninguém entrou. Não sei de onde ela tirou essa inteligente ideia. Boa parte dos potenciais pagantes ficou fora, incluindo dois repórteres que não iriam pagar.
Assim, sem mais burocracia, chegou o dia. Trinta e cinco pagantes num teatro que tinha duzentas cadeiras de palhinha. Olhando por um buraco na cortina, vislumbrei o que parecia uma barraquinha de  tiro ao alvo: um ali, dez buracos mais pra lá, dois pra cá, vinte vácuos alhures.
Somando os repórteres  com os que ficaram trancados lá fora, creio que fornecemos mais uns oito espectadores para o circo, para gáudio dos trapezistas e tratadores que não conseguiram bater na gente.
Todos estávamos nervosos. Olhando de novo pelo buraco da cortina, vi um sujeito gordo e muito sério  sentado na primeira fila. Sozinho. Começamos a nos perguntar o que significava aquele sujeito ali. Com toda certeza um censor do governo. Ou um fiscal, um guarda, uma autoridade.  Ninguém pensava nada que prestasse sobre o homem. O jeito era começar logo, a hora estava chegando.
O grupo tinha um sonoplasta, o Domingos, colega de classe e maluco por tecnologia. Por isso seu equipamento era um gravador portátil a pilha, um bumbo de fanfarra, um despertador extremamente barulhento emprestado de minha avó e algumas fitas cassete com a trilha sonora composta por um sambinha que tocava na hora de uma briga e mais algumas maluquices gravadas que nunca entravam na hora certa. Apesar da competência dele, claro que aquela parafernália não tinha potencial para funcionar direito.
Primeira cena:  meu primo dormindo num sofá.  Som de despertador.
(O relógio usado em cena não tocava, era falso. Quem disparava o despertador era o Domingos, na coxia).
Segue-se a cena:  Jair ouve o despertador,  acorda, espreguiça-se, pega seu relógio falso e finge desligá-lo.
(Nesse momento, o sonoplasta  desliga o despertador real).
Segue-se a cena: o despertador do Domingos toca lindamente. O pobre sonoplasta não consegue desligá-lo. Algo acontece fora do script. Lá, no palco, o pobre ator bate no relógio falso e nada da sirene parar. Público cai na gargalhada. Não prevista.
Segue-se a cena: o  ator, no auge da adrenalina, manda o relógio falso em direção a Domingos, que se não se desvia poderia ter morrido ali mesmo. Sonoplasta quebra o relógio verdadeiro para que o miserável pare de tocar. Público quase morre de tanto rir.
Quando entrei  em cena, meu batimento cardíaco era percebido pela famosa velhinha surda da última fila, para quem, segundo as regras do teatro amador de minha época, todo ator deveria falar, soltando o gogó (coitados dos bons de ouvido da primeira fila).
Para liberar a adrenalina, antes de falar meu texto, tirei o lenço do bolso e simulei uma escarrada magistral que fez o público rir de novo. Ou de nojo. Depois percebi que não foram meus dotes de ator que fizeram os espectadores gargalharem. Eles riram porque quando limpei o nariz, limpei também o bigodinho.
Lá pelas tantas, com a simpatia do público conquistada (ou a pena), entrava em cena uma empregada doméstica.
Era a personagem da fofoca, com texto grande.  No meio de uma discussão comigo, a criatura parou os olhos e ficou toda branca, mais do que a maquiagem de gueixa que usava. Eu ali, esperando minha deixa e nada.  De repente, como uma rolha de champanhe, ela se vira pra mim e diz: “ah, vai, faz você”.
- Ahn? Como assim, “faz você?”
- É, faz qualquer coisa aí.
- Er... ahn... bem... e inventei qualquer coisa até ser salvo sei lá por quem.
Risos e intervalo.
O segundo ato exigiria um pouco mais da mocinha da história, a que fazia o papel de esposa do personagem principal. Sei lá se por causa de tantas confusões no primeiro ato, deu nela uma crise de choro. Pranto convulso. Fui oferecer meu lenço bigodado e só piorei as coisas. Levei a pobrezinha lá para os corredores do colégio para que o respeitável público não ouvisse lamentos tão doloridos. Meu primo tentou algumas táticas de relaxamento que acabaram fazendo o choro virar gargalhada, só que mais nervosa ainda. Ela não parava agora era de rir.
O segundo ato correu sem maiores confusões e com poucos brancos. Isso até o momento da briga.  Quase no final da peça, aconteceria a famosa briga com o sambinha no fundo. Eu e o personagem principal tentaríamos nos agredir e a empregada apartaria a coisa, apoiada por um carteiro que subiria no sofá e pularia sobre todos.  Para nós essa seria a parte mais fácil, nem texto tinha. E foi bem ensaiada, diga-se.
Claro que o sofá quebrou com o carteiro em cima e ele (o carteiro, não o sofá) desabou de mau jeito por cima da coitada, que caiu de joelhos e não mais se levantou, enquanto o carteiro bateu com a cabeça no chão. Eu e meu primo saímos no soco de verdade, pois os miseráveis deveriam nos separar, mas nenhum deles conseguia se levantar. E assim fomos, eu e meu primo, trocando sopapos até as coxias, implorando pro Domingos fechar a cortina e dar aquele show de horrores por terminado.
Aplaudidos de pé. Por mais de dez minutos. Sucesso absoluto. Os dois dias seguintes tiveram casa quase cheia. O problema era repetir o que fizemos no primeiro dia. Não conseguimos, mas fizemos melhor, ou melhor dizendo, pior. E, nesse caso, quanto pior, melhor.
Ah, e o cara gordo, censor do governo, policial, guarda, autoridade? Era um ator, de nossa terra, radicado no Rio. Durante a peça, sua barriga subia e descia, galopando em gargalhadas. Anos depois, pude vê-lo atuando em uma novela das seis da Globo, filmada em São João Del Rei, na qual fazia um soldado muito divertido.
O pior foi convencer a madre superiora a liberar o teatro para os dois dias seguintes. Agravamos a coisa porque, devido aos brancos e confusões, improvisamos alguns palavrões delicados e familiares no meio das frases, até para fazer o público rir mais um pouco. Naquela época, qualquer FDP ou PQP tinha uma sonoridade explosiva, ainda mais dentro de um teatro de colégio de freiras, que Deus não nos envie para o purgatório. Prometemos não repetir os palavrões nos dias seguintes.
Realmente, não os repetimos. Falamos outros.
No meio de tantas verdades, os respingos de exagero são apenas um tempero, porque ainda há muito mais para colocar aqui, envolvendo essa e outras trupes com as quais me envolvi e que envolveram esse coração cinquentão com muita, mas muita saudade.
Ano: 1978
Local: Barbacema
Teatro:  Colégio Imaculada.
Atores: Jair, Lucrécia, Beth, Zé Otávio, Lurdinha.
Sonoplasta: Domingos.
Peça: Casamento em Perigo, de Jair Raso, em dois atos (depois ele inseriu um ato no meio dos dois, mas aí é outra história).




domingo, 19 de junho de 2011

Esse carnaval valeu!

Bem, esse carnaval foi em Tiradentes. Esse valeu a pena. Sem chuva, sem porco, sem barro. Na foto, Zé Rural, de peruca verde e Gleides. Eu, de alto falante.

O CARNAVAL, O BARRO E O PORCO

É evidente que há histórias que morrerão conosco. Outras, a bem da alegria, devem ser compartilhadas, especialmente quando o protagonista é mais inusitado que a situação.
Quando menino, não me dava bem com carnaval. Na adolescência arrisquei-me na bateria do Bloco do Saco, de Barbacena.  Ali as pessoas se vestiam de sacos de armazém, aqueles que acondicionam arroz, açúcar, milho.  Eram doados ao bloco pelos comerciantes, desde que o folião pintasse no saco (do armazém) o nome do patrocinador.
O que eu gostava, mesmo, era de narrar e comentar, para a rádio, os desfiles das agremiações. Fui até jurado uma vez. Verdade que quase apanhei quando critiquei o acabamento das fantasias e quando me recusei a dar uma nota alta para uma escola que decantara as qualidades do governo militar, poucos anos após o término do tenebroso período.
Foi muito bom criar e manter um programa para a FM Sucesso que se chamava O QUE EU VOU DIZER EM CASA. Nele, narrávamos com encenação radiofônica as ocorrências que envolviam prisões, brigas e outras maluquices que só podem acontecer no carnaval. Verdade também que quase entramos em frias imensas, pois os participantes das histórias nem sempre gostavam de ouvir seus nomes aos quatro ventos. Outros até pagavam pra aparecer.
Carnaval é maluquice. Uma vez tive de cheirar um frango dentro de uma sacola encontrada por um amigo, que tinha bebido mais do que podia, para convencê-lo a não comer aquilo, estava podre.
De outra feita, misturei restos de bebida numa garrafa pet. Preparei para os parceiros do Bloco do Pijama, que viviam bicando na garrafa da gente. Ou seja, bebida boa pra mim e a garrafa pet para os outros. Lá pelas tantas, a garrafa de cachaça sumiu e a pet estava comigo.  No dia seguinte, as pessoas me contaram coisas que eu não me lembrava. A tirimbamba devia ter um efeito hipnótico melhor que o do dormonid. Pena que perdi a fórmula.
Mais uma do Bloco do Pijama. Cheguei cambaleando no centro. Bloco disperso, o caminhão de som da rádio desfilava. Os locutores me viram e me colocaram sobre o capô, anunciando minha deprimente presença. Só me lembro de ter escorregado e batido no chão como um saco de batata. Fui devolvido ao lugar por um monte de seguranças e segui sentado naquele capô fervendo. Escorreguei de novo e só me lembro de ter acordado em casa.
A maior esquisitice que vivi num carnaval ocorreu anos depois de já ter desistido de fazer programas de rádio, tocar na bateria, tomar pinga, julgar e narrar desfiles. Um momento de insanidade me invadiu com o convite para ir a Alto Rio Doce ver o carnaval, junto com Zé Rural e esposa, mais minha irmã e o marido.
- Você precisa ver o que é carnaval! Animação, gente jovem, bonita...
- Jura?!
- Claro, você não faz mais nada no carnaval, só fica em casa, vendo televisão.
- Melhor que me arrebentar.
- Você vai conosco. Lá tem uma fazenda, você vai descansar e ver um carnaval jovem, tranquilo, engraçado.
- Não sei.
- Você VAI. (Levaram-me pro jipe e nem conversa quiseram mais).
Sessenta quilômetros de estrada de terra e chegamos. Para não perder o costume, choveu. Sempre chove nas minhas histórias. E sempre chove muito no carnaval daquela região. Só que era uma chuva de verão, daquelas que caem de uma vez por vinte minutos.  
Andando pelo centro, vimos jovens se divertindo sadiamente, pulando em cima dos carros dos outros. Em frente à rodoviária um lago barrento servia de salão para os foliões que deviam ser uns dez mil espirrando água suja.
Resolvemos todos entrar na bagunça. Coloquei uma peruca de Elvis Presley (nunca mais ouvi falar nela depois), optei por me molhar de verdade ao invés de fugir das goteiras da rodoviária.
Depois de meia hora bufando por absoluta falta de preparo físico, implorei para me tirarem dali. Foi legal, adorei empurrar os outros pra sujeira, mas gostei menos quando me jogaram.
Entramos no jipe e fomos para a tal fazenda há uns três quilômetros. A chuva havia parado de vez, mas o que deixou de lama dava pra montar outro exército de guerreiros terracota de Xian. O jipe era daqueles tracionados, que sobem até parede, mas não subiu a anacôndica estrada para a fazenda, localizada nos píncaros da mais alta montanha daquelas plagas.
Em dias normais, aquilo é pó a granel. Em dias chuvosos, a lama chega a ter meio metro de profundidade, sem exagero. O dono da fazenda, que não era de muita conversa, avisou:
- O jipe num sobe não.
- Então vou voltar à cidade e pegar uns cavalos lá, falou o Zé Rural.
- Hoje nem cavalo sobe, “morreu” dois tentando, na chuva da semana passada.
- Então, como vamos? (eu perguntei)
- “De a pé”, uai. 
O último poste com lâmpada funcionando havia ficado há uns três quilômetros. Desci para inspecionar a situação. Quando saí do jipe, pensei que não havia chão. Afundei com tanta naturalidade que achei estava voando.  Como estava totalmente escuro, eles só foram me ajudar quando ouviram meu grito abafado e, mesmo assim, tive de continuar berrando para que achassem o local exato.
Depois de um deles afundar e ter sido resgatado pelo outro, que afundou logo em seguida até ser salvo pelo primeiro, fui puxado pelos dois e saí do buraco sem as botas, que ficaram sepultadas junto com os cavalos da semana anterior.
Não tive muita escolha de por onde ser puxado, motivo pelo qual fiquei sem os fundilhos da calça.
Voltamos abraçados para o jipe. Não pensem em boiolice, aquilo foi uma estratégia para não nos perdermos e para nos segurarmos em caso de escorregões.
Depois de uns três tombos, já dentro do jipe, traçamos a estratégia da caminhada para casa. Tinha de ser a pé, pois o jipe, para piorar as coisas, estava atolado. E parecia que ainda ia afundar mais.  Saímos. Três na frente, minha irmã, o marido e a esposa do Zé Rural.  Três atrás, eu, o Zé e o dono da fazenda.
Assim seguimos, enlaçados uns aos outros. Foi um tal de “ops, epa, cuidado, ui”, “plaft”. Entendi porque minha esposa não quis ir a esse passeio. Ela é bem mais esperta do que eu pensava.
E o rumo? Como saber para onde ir? Estaríamos indo ou voltando? Graças a um senso de direção incomum, o dono da fazenda parecia saber o que estava fazendo. Seguimos pelo absoluto breu, ora enfiando o pé num buraco, ora escorregando espetacularmente.
Após mais de uma hora subindo no escuro, aparece, como que por encanto, um riacho. Bem, era mais que isso, era quase um rio. Como pudemos enxergá-lo? A lua, por incrível que pareça, deu as caras por entre as nuvens.
O rio apareceu e com ele a pinguela, ou seja, aquela ponte na qual só se pode passar um e que, pra piorar, balança feito bambu. Até porque era feita de bambu. Ainda sob algum efeito da pinga que tomei, do afundamento, dos escorregões e de mais de uma hora em absoluta escuridão, não me senti na mínima condição de atravessar aquilo.
- Não vai me aguentar.
- Claro que vai, olha lá. O elefante passou e ela aguentou (Elefante era o Zé Rural que naquela época tinha uns 120 quilos).
- Eu sou mais pesado e ainda por cima estou meio tonto.
- Deixa disso, olha lá, sua irmã está indo.
- É porque ela enxerga mal e não está vendo o que faz.
- Olha, ela passou.
- Eu não passo, problema dela, prefiro ir pelo rio.
- É fundo aqui.
- Vou lá pra baixo onde deve ser mais raso.
- É, mas seguindo pra baixo tem uma plantação de arroz e uma cerca de arame farpado.
- Caramba, então eu atravesso, pronto, me seguro naquele corrimão ali (só naquele momento consegui ver que havia um corrimão na pinguela).
- Não, não pode segurar naquilo.
- Por quê? Regra da casa?
- Não, é que aquilo ali só enfeita, não aguenta peso nenhum.
- Então pra que existe um corrimão que não se pode correr a mão?
- Sei lá, não fui eu que o coloquei lá. (É, fazia sentido, mas poderia ter arrumado, pensei.)
- Vou pelo rio. Pronto.
- Olha, todos já foram. Você vai atravessar ou não?
- Vou nada. Ou é o rio ou durmo aqui mesmo.
- Olha ali. Tem só uns seis metros de altura. Se você cair, o tombo não é muito alto, tem água embaixo, amortece... tem pedras também, mas é mais fácil cair na água que na pedra.
Aquilo não me animou. Se fosse pra cair, o que tenho certeza que seria inevitável, melhor me jogar na água de uma vez.
- Vou pela água.
- Aqui é fundo, melhor então descer mais pra lá (apontou pra direita).
Segui por lá e ele, gente boa, veio atrás.
- Vou com você, vai que tem uma cobra aí.
- Tem nada, tá tudo molhado, cobra não gosta de água (não sei de onde tirei isso).
E lá fomos nós seguindo o leito do rio pela margem até dar de cara com uma cerca.
- Cerca? Atravessando um rio? Como pode?
- Não tá atravessando o rio. Ela acaba aqui e recomeça do outro lado. É divisa.
- Do quê? De Minas com São Paulo?
- Não, de fazendas. A gente passa pela cerca e sai do outro lado, desce mais um pouco, o rio fica mais raso, a gente atravessa na água pelas pedras e sai do outro lado, passa debaixo da cerca de novo e sai do meu lado. Daí a gente só tem de subir o morro e chegar lá em casa.
- Já estou cansado só de ouvir. Melhor ir fazendo isso aos poucos.
Claro que não foi simples para mim. A cerca era de fios muito próximos, então tive de deixar uns pedaços de roupa e de pele ali.  As meias também já tinham ido embora. E que frio. Entramos no rio. Água até a cintura e um frio sorvêtico, picolézico.
- Vai perto das pedras pra correnteza não te levar.
- Correnteza? Tem isso aqui?
- Uai, claro, já viu rio sem correnteza e sem cobra d’água?
- Cobra d’água?
- É, essa aí perto, mas fica tranquilo, ela não morde.
- Como você sabe? É sua conhecida?
Por que a lua resolveu aparecer? Pelo menos no escuro eu não estava vendo nada. Segui próximo às pedras com água até a cara, lembro-me de ter sido arrastado até mais perto de uma delas, na qual bati com o nariz, mas não fui arrastado. Saí do outro lado e lá estava o anfitrião me esperando. Rápido, ele.
- Me dá a mão que eu te puxo.
- Mais fácil você cair aqui tentando me puxar.
- Me dá a mão logo, anda. A cobra tá aí atrás de você.
Nem precisei da mão dele. Num átimo, lá estava eu de pé no barranco, prontinho para passar por baixo da cerca, ganhar o terreno dele e subir o morro em busca de um chuveiro quente que pudesse me ajudar a evitar a pneumonia até ali iminente.
Claro que deixei o resto da camisa na cerca, mais baixa que a anterior. Claro que me arrastei pela grama por alguns metros, até ter certeza que não havia mais arame farpado em cima de mim. A lua se foi outra vez e tudo foi escurecendo, mas subi valentemente o morro. De repente, vi uma lâmpada lá longe. Meus amigos, do tamanho de formigas, acenavam.
- Chegaram! Estão vivos!
Como um sobrevivente do ataque de Pearl Harbor, adentrei os portais do casarão, divisei um fogão à lenha com uma panela de sopa borbulhando. Aquele cheiro me deu forças para abraçar uma toalha, um sabonete, uma roupa limpa e um banheiro, onde tomei o banho mais reconfortante da minha vida, perdendo apenas para aquele que tomei depois de uma semana no pátio do exército tomando sol de graça.
Após o banho, recomposto da fisionomia de horror, tomei a sopa e me dirigi ao aposento. Morri ali mesmo e ressuscitei no dia seguinte, às cinco da manhã, ouvindo guinchos. Guinchos profundos e tristes, de um porco.  O que fazia um porco acordado e guinchando àquela hora? De ressaca e ainda com os músculos tremendo pelo esforço da véspera, abri a janela e vi.
Subindo o morro e já quase debaixo de minha janela, dois peões puxavam um porco enorme, que guinchava de dar dó. Achei que era pesadelo.
- Vamo levá ele pra lá.
- É, debaixo daquela jinela tá bão.
- Sossega, porco (e cacetada no pobre).
Eu não podia acreditar, mas eles iam matar um porco ali, cinco da manhã, naquele chão barrento, debaixo da janela do quarto onde eu tentava dormir.
- Ei, o que vocês vão fazer?
- Uai, homi. Num tá veno? Vamu matá esse porco.
- Mas é feriado...
- Pru sinhô, da cidade grandi... pra nóis num tem isso não... se quisé pode ficáveno...
Não tive outro jeito. Fiquei ali vendo o porcocídio. Um dos peões foi ao celeiro e pegou uma pá, com bosta de cavalo colada. O outro pegou um balde, despejou os ratinhos que moravam nele no chão e se dirigiu para a janela. O da pá tirou uma faca não sei de onde.
- Levanta o subaco dele aí.
- Tóim (barulho de facada no sovaco do porcão).
- Gui-gui-gui...(e a guinchação aumentou, sangue pra todo lado).
- Me dá esse sabugo aí.
- Toma.
O da pá pegou o sabugo de milho e arrolhou o buraco feito no sovaco do porco, que ainda guinchava. O porco, não o sovaco. Cheguei a pensar que ele tinha errado o coração da criatura, pois o que eu ouvia de guinchos era um espanto. Foi quando apareceu o Zé Rural no pátio pra ver o que se passava.
- Ah, matando porco...  mas desse jeito?
- Desse jeito como?
- O pobre tá cansado, subiu esse morro todo até aqui e vocês já enfiam a faca assim mesmo? Vai levar um ano pra morrer.
- Zé, nóis num tem um ano não, ele vai morrê é logo (deu umas cacetadas na cabeça da criatura - que maldade - até que o bicho sossegou).
Não vou negar. Ensaiei umas lágrimas. Fiquei pensando no dia que o pobrezinho nasceu (nem meu conhecido ele era), um leitãozinho cor-de-rosa pequenino, de nariz de tomada, todo mundo achando uma gracinha, a dona porca toda orgulhosa de seus vinte porquinhos... e agora ali, morto cruelmente. Não gostei nada daquilo.
- Vocês são uns covardes, gritei.
Ouvi um dos peões perguntar ao Zé Rural quem eu era e se era bom da cabeça. Pela resposta, cochichada no ouvido dele e pela risada que veio depois, boa coisa o Zé não disse a meu respeito.
Daí a pouco, colocaram o porcão em cima de uma tábua imunda e meteram fogo nele. Pensei: tanto trabalho e agora incendeiam a criatura? Não era um incêndio, era uma sapecada nos pelos. Logo um deles apareceu com um prestobarba. Foi tudo ficando branco.
Em seguida, eu já estava fora, vestido e totalmente esquecido da necessidade de dormir. Fui ver o resto da carnificina. Minha irmã e meu cunhado lá estavam, também dando vazão a seus instintos sádicos.  Além de nós, apareceram mais de cinquenta galinhas, todas esperando um pedaço de qualquer coisa.
Colocaram o porco de barriga pra cima, meteram uma picareta na barriga dele, rasgaram tudo. Colocaram o balde embaixo e, com a pá, encheram-no de tripas. Porco vazio, balde cheio.  Zé Rural começa a criticar a higiene.
- Olha a porqueira.
- Claro que é porqueira... não viu que eles mataram um porco?
- Não é isso, estou falando é dessa falta de higiene. Olha, uma pá colada de bosta de cavalo, um balde imundo, esse porco aí no chão enlameado, misericórdia. Se a vigilância sanitária baixar aqui acho que até nós teremos de pagar multa pra continuar vivendo.
- Que exagero. Isso é para consumo familiar mesmo.
- Uai, e família não tem de ter higiene?
- Eles vão fritar isso tudo e a sujeira desaparece.
- Anti-higiênico e pronto. Olha as galinhas. Todas bicando a barriga do porco. Olha aquela lá fugindo com um pedaço da vesícula dele.
- Ela vai se ferrar, aquilo é amargo, é bile...
- E galinha lá tem paladar?
Como se o show de horrores ainda não tivesse sido suficiente, entrou em cena um jumento. Os dois colocaram as bandas do porco, devidamente vazias, sapecadas e bicadas de galinha, em cima do pelo do lombo suado do pobre equino. E lá se foram, puxando o jumento carregado de porco.
- Inté, seu Zé Rural, inté seu homi duente. Fica cum Deus, que ele protege oceis.
Fiquei pensando que Deus era esse que iria me proteger, enviado por esses desalmados, que acordam um trabalhador de férias, em plena madrugada, assassinam fria e cruelmente um pobre ser de nariz de tomada, deixam uma sujeirada danada para chamar mosquitos que logo chegaram. E que ainda me chamam de doente. Coisa do Zé Rural.
No café da manhã, fiquei longe de presunto. Só pedi para voltar pra casa quando meu cunhado, após encher a barriga de queijo, fez uma sugestão iluminada ao dono da fazenda.
- Essa bela casa poderia ser transformada em um grande hotel, o que acha? Um hotel fazenda!
Nesse momento, minha irmã engasgou com um biscoito de polvilho, cuspindo tudo em cima de mim. O dono da casa olhou pra ele e, de forma simples, respondeu:
- Até dava, mas essa estrada é muito ruim...
Eu devia ter avisado para não darem queijo ao meu cunhado. Não me aguentei:
- Claro que poderia ser um hotel. Hotel de aventuras. Ele vai fazer um estacionamento para seiscentos helicópteros aqui. Afinal,  quem não tem um helicóptero hoje em dia? E ainda oferecer um tour à La Indiana Jones.
Carnaval é mesmo um período de maluquices. No ano seguinte, meus amigos voltaram à carga para me levar novamente para Alto Rio Doce.
- Ah, você precisa assistir o Bloco da Burrinha... é muito legal... ano passado nem pudemos ver!
No que eu respondi:
- Depois de tudo que eu passei, ainda vou de novo ver um bloco, ainda por cima chamado Bloco da Burrinha? Nem se eu fosse o burro do bloco eu iria. Prefiro ficar aqui, emburrado.
Agora, cá para nós.
Graças a Deus temos amigos que riem com a gente.
Que, mesmo diante das chatices nossas de cada dia, continuam nos convidando, pelo puro prazer de estar ao lado da gente.
Amigo não tem defeito. E ponto final.







segunda-feira, 13 de junho de 2011

Todo mundo vende o tempo todo

Verdade. Todo mundo vende. O tempo todo. Isso porque vender é convencer e persuadir alguém a aceitar que sua ideia, seus ideais e, por fim, seu produto ou serviço, podem atender à necessidade que seu interlocutor descobriu que tem, com ajuda de sua consultoria, seu relacionamento, a confiança e a ética que transparece com seu convívio. Por isso é certo dizer que todo mundo vende, vendeu ou venderá algo a alguém. O vendedor profissional deve ser um consultor que busca atender necessidades. E isso só é feito por quem gosta de gente, de ouvir, de falar e estudar profundamente clientes e produtos. Muita gente fala sobre isso e muitos fazem sem saber. O grande segredo está em analisar o próprio comportamento e dos outros. O resto é fechamento de venda. Boa sorte.

domingo, 12 de junho de 2011

O RÁDIO, O FUTEBOL E EU


Antes de trabalhar com vendas, fiz muitas coisas. Nunca fui do tipo prático, que conserta ou monta coisas. A última coisa que me meti a montar foi uma casa de passarinho para meu filho, que ficou parecendo um monte de lixo em cima de um cabo.
Com essa vocação para coisas práticas, a única coisa que aprendi foi pintar parede, lavar carro e colar. É, sei colar coisas que se espatifam, especialmente quando caem de minhas mãos estabanadas.
Tentei o teatro, mas as experiências foram mais ou menos, especialmente no campo financeiro. No palco, estereotipava os personagens quase estragando tudo em nome da irreverência. 
Depois de algumas peças, textos mal ajambrados e um curso de cinema em 1975, fui para o rádio.
Não consigo me esquecer dos quilômetros cansativos percorridos na escada de acesso à rádio. Nunca vivi um processo tão complicado, acho que não me queriam. Sei lá por que, talvez fosse muito novo,  talvez tivesse voz ruim.
Fui  locutor, redator, repórter, produtor e vi muita grana. Em sonho. Aproveitei  então o tempo para ouvir histórias, vivê-las e registrá-las.
Como essa.
Era um sábado cinzento e eu, estagiando, cheguei para ajudar em um programa de auditório sem auditório. Só que não havia programa. Locutor e técnicos estavam saindo para o estádio local para transmitir um amistoso entre o dono da casa e um time da terceira divisão do Rio de Janeiro. Fui junto.
Antes, passamos no centro para ver o time visitante ser fotografado em traje de gala. Chegamos e o estádio estava quase lotado. Fomos para a cabine (se é que aquele quadradinho de concreto era mesmo uma cabine).
Antes de qualquer coisa ser ligada, o locutor colocou seu imenso fone de ouvido, equipamento imprescindível para que todos soubessem que ele era o cara da rádio. Ou um marciano.
Era engraçado: ele berrava ao conversar conosco e nem tanto barulho havia assim. Descobri que ele ficava ouvindo a rádio, no fone, numa altura desesperada e, para falar, ele se esgoelava. Achava que só o ouviríamos se ele também se ouvisse. Enquanto isso, o técnico ajeitava as coisas por ali, tapando os ouvidos como podia.
Começa a peleja e o locutor começa a narrar. Narrar não é bem o que ele fazia. Digamos que ele zurrava.
- Bola com o jogador que é o... o... número 7 (aí procurava na lista) fulano! Opa, agora já tá com o jogador que é o... caramba, passa a bola pra alguém do time da casa, pelo menos assim eu sei no nome... E tome gritaria na narração. Eu tinha absoluta certeza que as pessoas do estádio poderiam ouvi-lo sem rádio. Acho que até na minha casa o rádio poderia ser dispensado e olhe que eu morava há uns dez quilômetros.  
Fala o comentarista, dizendo aquelas coisas que os comentaristas dizem, ou seja, nada. Fala o repórter de campo, bufando, pois havia corrido até o banco dos reservas em busca de uma palavra do técnico do imponente time visitante. Não entendi nada que ele perguntou. E olha que eu estava ali no meu ladinho, com meu ouvido colado num radinho de pilha. Ninguém como eu, anos depois, entendeu tanto os Titãs, com sua Sonífera Ilha, especialmente naquela parte de colar o ouvido num radinho de pilha numa ilha sonolenta. Aquele jogo estava me dando sono.
De repente, chuva. Normal, chuva em futebol é até legal. O campo não tinha uma drenagem boa, de forma que lagoas se formaram. De lagoas passaram a açudes. De açudes a uma grande represa. As arquibancadas não eram cobertas e o respeitável público começou a se molhar. A cidade já não é nenhum exemplo de lugar quente.
A chuva começou a apertar. Chovia baldes. A água batia na gente por atacado. Claro que não dava mais pra jogar, ninguém enxergava nada. O juiz suspendeu o jogo e tenho a impressão de que o apito só serviu para oficializar uma coisa que já tinha acontecido. Havia mais de meia hora que não se via jogador, bola, gandula, campo, nada.
Os únicos lugares aparentemente seguros ali, já que faíscas caíam como serpentinas junto a  caçambas d´água, eram as cabines das rádios. Cada uma das duas mal suportava quatro pessoas e as traquitanas eletrônicas valvuladas, naquele momento  já transformadas em sucata queimada. E a água entrava pela frente e pelos lados como cachoeira.
Milhares de torcedores entravam em qualquer coisa que tivesse uma cobertura e as cabines eram vistas como ótimo abrigo. De repente, uma senhora resolve passar mal. Era uma vizinha. Saí da frente para que ela entrasse esfregando o peito: - ai, eu sou infartada... estou passando mal... o locutor, com seu inseparável fone de ouvido disparava ordens: - aqui não cabe mais ninguém, dona...tira o pé daí... minha senhora, aqui não é lugar de morrer... morre mais pra lá...
Quem quase morreu foi ele. Um estampido ao lado da cabine fez todos se atirarem ao chão e o locutor gritar com um choque, pois o vi atirando o inseparável lá no meio das arquibancadas. Dizem que isso faz ficar surdo. Se é que ele já não era.
Resumindo a ópera, meu primeiro e último jogo de futebol, acompanhando uma equipe de rádio, não terminou. E nunca recomeçou. Depois da chuva, ali estava uma situação pós-apocalíptica. Era gente correndo, equipamentos estragados, um frio siberiano, empurra-empurra, pisoteadas, choro e ranger de dentes.
Não sei se esse foi o motivo que me afastou do jornalismo esportivo. Sei que não fui convidado para nenhuma outra jornada. Acho que eles pensavam que eu dava azar.
Anos depois voltei a um estádio.  1989, Maracanã, no meio de uma equipe de mais de duzentos colegas em plena convenção de vendas. Fomos ver Brasil e Chile. Sim, exatamente aquele que não terminou. Acabou por causa de um foguete jogado perto do Rojas, goleiro do Chile, que fingiu ter sido atingido. Sim, eu, como bom Forrest Gump, estava lá. Mais um jogo não terminado no meu currículo.
Só que não desisti. Fui ao Mineirão duas vezes para ver meu Cruzeiro perder. No Maracanã vi um Brasil e Colômbia, que de tão ruim me fez dormir.  No Palestra,  vi meu Flamengo perder duas vezes do Palmeiras. Acho que das vezes em que me meti a assistir um jogo ao vivo, o único dia feliz foi no Orlando Scarpelli, em Florianópolis, quando vi o Brasil fazer dez gols, sete válidos, em Trinidad Tobago.
Não dou mesmo muita sorte em estádios. A única coisa boa até hoje, de verdade, que aproveitei, foi o feijão tropeiro do Mineirão. Nem precisa saber que jogo está acontecendo, até porque meu time sempre perde. Tendo o feijão, está tudo certo.

Em tempo: em 2014, vou ver a Copa pela TV.

sábado, 11 de junho de 2011

Esse lugar é Bonito

Poucas vezes vi um lugar ter um nome tão a ver com ele mesmo. Bonito, em Mato Grosso do Sul, é um desses lugares. A foto é minha ou do meu filho, não sei mais. Conseguimos flagrar esse momento aí. O lugar é muito mais que Bonito, por isso sugiro um plebiscito à municipalidade para modificar o nome para Fabuloso e assim fazer mais justiça.

Verdade esse negócio de nome. Tem lugar que se chama Passa isso, Passa aquilo, Três isso, Três aquilo, Santo esse, Santo aquele, Rio de não sei o quê... cada nome! A gente vai, visita e vê que o nome do lugar não o identifica nem um pouco.

Com Bonito é diferente. Lá, só indo. A gente vai porque se chama Bonito e fica com vontade de voltar e de convencer os outros a irem também, porque, na verdade, é formidável, estupendo e mais um monte de nomes que não usamos mais, porém servem para mostrar o que os garotos de hoje chamam de "da hora" , "maneiro", sei lá mais o quê...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Esse foi um dia muito especial. Comigo, no palco, a querida Carla Weiss, então Gerente de Marketing da Diabetes Care da Bayer. Ganhamos do GRUPEMEF uma LUPA DE OURO pela campanha de lançamento do Breeze2. Ganhamos também uma de prata, pelo lançamento do CONTOUR TS. Gosto de lembrar que as campanhas foram lindas, apresentadas por mim ao comitê julgador do GRUPEMEF. Pela primeira vez, mesmo não sendo mais do marketing, subi ao palco do evento mais importante da indústria farmacêutica do Brasil. Emoção pura e realização para um velho vendedor contador de histórias.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

EU E O FUINHA

Tive um carro velho, não mais velho que muitas furrecas que ainda rodam.
A diferença é que eu sei o que passei com meu primeiro carro, um chevette 74, adquirido em 1986. Doze anos separavam meu primeiro carrinho de sua linha de montagem. Nem tão velho era. Eu o fiz ficar.
Comprei-o sem negociar. Tentei pechinchar, mas era minha primeira grande aquisição. A emoção de ter meu veículo, depois de anos mendigando voltinhas no carro do pai e dos amigos, não me permitiu negociar. Lembro-me do preço: vinte e dois mil qualquer coisa (não vou saber o nome da moeda, se cruzeiro, cruzado, cruzado de direita, lascas).
O banco me emprestou dez. Meu pai mais dez. E o cara não quis abrir mão dos dois. Naquela época, a oferta de carros não era como hoje. Andei procurando e só achei umas belinas podres e umas variantes em processo de definição da idade pelo carbono 14. Fuscas nem pensar, muita manteiga pra pouco pão.
Acabei ficando com o chevelho 74, mostarda, pneuzinhos mais pra meia-boca que pra meia-vida. Minha avó, que passou boa parte da vida sonhando em me dar um carro, raspou a conta e me deu os dois que faltavam.
Não me importei com o impregnado cheirão de bograxoleolina*, nem com os paralelepípedos e pés-de-moleque que passavam céleres quando eu olhava pra baixo, entre os pedais.
Estacionei na entrada da rádio onde trabalhava e saí girando o chaveiro após bater a porta e ouvir um barulho diferente de todos os barulhos portais que já tinha ouvido. Algo como um  “póó” agudo, seguido de um eco. Não havia de ser nada.
O locutor do horário era o Walmir Leporatti, compositor e cantor dos bons, um cara que mantém um pé na terra e outro na poesia. Foi ele que, ao ver pelo vidro do estúdio o meu mostarda, disse:  -  Legal o seu fuinha.
- O meu o quê?
- Seu fuinha. O nome que dei pra ele lá.
- “Ele lá” é o meu carro!
- Ah, lógico, claro...
- Não gostou dele?
- Claro que gostei. É uma singularidade! (Até hoje não sei se isso foi um elogio).
Logo o levei para minha namorada (hoje minha esposa) conhecer. Ela morava meio longe e eu ia quase todo dia lá a pé. Com o fuinha pudemos passear mais longe, algumas vezes nos perguntando porque levar o chevette.
Eram estradas de terra, calçamentos irregulares, buracos, barbeiragens e falta de manutenção. Acreditem, convivemos mais de dois anos, mesmo não sendo eu um sujeito muito dado a capricho.  Só lavava o fuinha de vez em quando. Até porque na terceira lavada ele ameaçou mudar de cor. Passei a lavá-lo com menos frequência e ímpeto.
Certa vez entrei num supermercado onde o estacionamento escuro parecia um labirinto. Bati com a frente do fuinha no fim da vaga achando que era mais comprida. Afundei o que restava do para-choque e a cara dele ficou ainda mais afuinhada.
Aconteciam coisas nele que nunca vi em carro algum. Ao desligar e tirar a chave do contato, ele permanecia funcionando e só parava quando eu desligava o farol. Outra: ao acionar o pisca-pisca, o esguicho de água funcionava. Dependendo do dia e da vontade dele, buzinar podia ser fatal, pois ele morria. Isso sem falar na paisagem do assoalho que aumentava cada vez mais. Quando chovia entrava tanta água que só arregaçando as calças.
Belo dia, no meu programa na rádio, anunciei na bolsa de empregos uma vaga num laboratório farmacêutico. Pagavam bem, exigiam segundo grau completo, boa comunicação e carro.
Pensei comigo: tenho terceiro grau, comunico-me por profissão e tenho o fuinha. Fui fazer o teste. Sessenta candidatos a uma vaga. Psicotécnico, cálculos, conhecimentos gerais, entrevistas, fiquei na peneira até o final. Foi aí que o supervisor quis ver o meu carro.
Pelo menos estava recém-lavado e com os pneus engraxados pelo Maranhão (o nome de um profissional que lavava o fuinha sem tirar a cor). Estacionado em frente ao hotel, no meio de escorts, monzas, unos, estava o fuinha, muito humilde e muito mostarda.
- Qual é o seu carro? Essa foi a pergunta que eu mais temia em todo o processo de seleção.
- Ali... Apontei com o beiço na direção dos carros.
- O escort? Bonito...
- Não... o outro.
- Poxa, um Monza... carrão!
- Não... é aquele ali... disse com a voz quase sumindo.
- O Uno... carrinho fraco, mas está novo.... muito bom.
- Desculpe, mas você não acertou ainda...
- Como não? Já falei todos os carros que estão ali... menos aquela kombi e aquele caminhão.
- Não está vendo o chevette?
Ele firmou a vista, olhou pro fuinha, olhou pra mim de volta, olhou de novo pro fuinha e assim ficou por um bom par de minutos, até emitir o primeiro som.
- Arnft...aquele cor de... mostarda?
- É... é o único chevette da fila.
Desapontado, o homem atravessou a rua, rodeou o carro, olhou os pneus, espiou dentro e disse:
- Desculpe, não sei porque não reparei nele antes..
- Eu sei porque (pensei).
-  Olha, sem querer magoar, mas... dispensei uns três bons candidatos pra ficar com você...
- Ele aguenta.
- Não aguenta não. Seu setor de viagem será enorme.
- Por favor, ele aguenta. E eu preciso do emprego.
- Tem certeza? Vou ter de pular algumas regras de segurança da empresa e...
- Seis meses e eu troco.
Ele aceitou e eu comecei a trabalhar.
Viajava no fuinha quatro semanas por mês e ele sofreu calado. Nunca me deixou na mão. Destruído, motor retificado, com mais de quinhentos mil quilômetros nas costas, o valente fuinha continuava espirrando água quando eu ligava a seta, morrendo quando eu buzinava, fedendo a graxa, escorregando nas curvas.
Certa vez precisei cortar caminho para Ouro Preto. O chefe ensinou a usar uma estrada de Ouro Branco até lá. Disse que era uma estrada de cascalho, muito boa, sem buracos. Deveria ter dito cem buracos. Por quilômetro. Peguei a estrada de sessenta quilômetros e a buraqueira era tanta que os vidros das portas afundaram. Fiquei à mercê da poeirada pelos quase seis mil buracos nos quais entrei e saí.. até começar a chover. Todo empoeirado, recebia agora uma aguaceira das janelas e do assoalho. Não me sobrou uma parte limpa. Transformei-me, em alguns quilômetros, em um barranco humano. Cheguei a Ouro Preto no horário para me encontrar com o chefe. Pontual e imundo. O carro parecia um torrão. O chefe, na porta do hospital, ao ver aquela cena surreal, correu em minha direção.
- Nem se atreva a entrar no hospital desse jeito. Que aconteceu?
- A estrada que você me indicou. Ótima.
- Você pegou a estrada certa?
- E existe outra entre Ouro Branco e Ouro Preto?
- Troque essa roupa, tome um banho, vá para o hotel, lave esse carro...
- Tá bem, mas acho melhor não seguir essa sequência...
- Vá logo!
Estava de mau-humor. Pra variar.
O fuinha ainda não havia esgotado sua capacidade de me meter em fria. Num feriado prolongado, viajei sem ele e meu pai tentou dirigi-lo. Ele engasgou, cuspiu, morreu, falhou, só faltou falar que não aceitava outro motorista. Quando cheguei, meu pai sugeriu que eu me livrasse daquela “geringonça”. Como? Com que grana? Entrei no carro, virei a chave e... mágica! Funcionou perfeitamente. Nunca entendi isso.
Certa noite, minha avó no hospital, fomos visitá-la. De fuinha. A caminho, lotação esgotadíssima (meu pai, minha mãe, minhas duas irmãs e eu), a parte final do escapamento arrebentou. Estava podre, claro. O barulho passou a ocupar a sala de toda a vizinhança que tentava assistir novela. Seguimos caminho, o hospital tinha horário.
Na volta, o resto do cano acabou de soltar. Sabe aquela parte da frente, conectada no motor? Pois é, aquela coisa caiu no chão, onde ficou. Eu nunca tinha ouvido um barulho tão infernal, grave e estrondoso. E a família dentro, minhas irmãs gritando para eu dar um jeito naquilo. Como? Só desligando o carro no centro da cidade, no meio do trânsito. Foi aí que o fuinha endoidou. Parece mentira, mas a buzina, nesse momento, disparou.
Nada mais impróprio para o centro da cidade numa sexta-feira à noite. Não havia como parar. E, claro, esse é o melhor momento para ver amigos e conhecidos. E lá foi o fuinha berrando com minha austera família dentro, tapando os ouvidos.
Chegando em casa, meu pai abriu o capô, enfiou a mão nos fios da buzina e puxou tudo de uma vez.
- Praga de carro!
O prazo prometido ao chefe estava vencendo e eu já havia guardado algum para trocar por um carro um pouquinho mais novo. Por sorte o Delfim, colega de outro laboratório, tinha uma Brasília 78, super conservada e ofereceu-me em troca. Ele queria terminar de pagar sua casa.
Na verdade, eu comprei a Brasília dele e dei o fuinha e mais dois pneus novos de volta. Isso depois de jurar que o carrinho ainda aguentaria pelo menos seis meses. Acho que o fuinha me ouviu, pois aguentou.
Uns três anos depois, trabalhando em Lavras, motorizado com um carro da companhia, fui apresentado a um colega de profissão que só conhecia de nome.
- Ele é irmão do Delfim, que te vendeu a Brasília e ficou com teu Chevette.
- Ah, prazer... Delfim é um grande amigo. Seu irmão? Vocês são parecidos...
- Espera  aí... foi VOCÊ que vendeu aquele Chevette pra ele?
- F-foi... (já fiquei com medo de alguma notícia ruim).
- Você acredita que ele me vendeu aquele carro, ou melhor, aquela coisa?
- Seu irmão fez isso com você? Ou melhor... que legal...
- Legal? Aquela coisa desmanchou comigo no meio da rua...
- Como assim, desmanchou?
- Desmanchando. Começou entrando uma aguaceira em baixo, depois os vidros das portas se soltaram, escutei um estalo e o assoalho se desprendeu da lataria, ele arriou comigo e tudo. Desmanchou. Vendi a quilo para um ferro-velho lá de Juiz de Fora.
Depois do fuinha tive muitos outros carros, inclusive chevettes. Tive bons e ruins, novos e velhos, mas, confesso: se os objetos ganhassem alma ou pudessem ser invadidos por elas, creio que o fuinha, se teve uma alma, está no céu agora. Ele parecia gente. Parecia me conhecer. Fazia-me passar vergonha, mas na hora “h” era valente. Foi com ele que tudo começou de verdade. Na profissão, no namoro, na família que criei.
Em tempo: consegui pagar o banco e meu pai. O banco, com todos os juros possíveis. O pai, bem, ele só me pediu para dar a metade, sem juro, sem nada, a uma das irmãs, para não favorecer um filho só. E minha avó, que me deu o dinheiro faltante, bem... essa não sei como agradecer, pois está no céu há muito tempo, mas ainda teve tempo de passear no furrequinha do neto.

* bograxoleolina: cheiro misturado de borracha, graxa, óleo e gasolina.







quinta-feira, 5 de maio de 2011

Eu e a Moto II

Um amontoado de linhas não basta para contar minha odisseia com motos. Se a história anterior não lhe convenceu que nasci para andar motorizado sobre quatro e não duas rodas, acompanhe isto.
Tinha uns 19 anos. Um velho amigo da rádio, pai de família e tudo, me aparece aboletado numa moto. Nem sei se era dele. Pleno carnaval.
- E aí? Gostou da maquinona?
- Legal.
- Vamo nessa?
- Nessa o quê?
- Nessa moto aqui, seu.
- Não, obrigado (Ele me pareceu meio tonto).
- Vamo lá, cara. A gente passa no Meia-Lua*, aquilo lá tá saindo mulé pelo ladrão.
- Han... mas se elas derem mole, onde vamos levar? Aí só cabem dois.
- Se EU me der bem, VOCÊ tá fora.
- Nada como uma boa dose de sinceridade.
- Mesmo assim, tá valendo o convite. Pensa... você, com essa pinta de locutor, numa moto, na frente daquela mulezada...
Sempre disseram que minha imaginação era fértil. Hoje não tenho dúvida: coloquei meus óculos escuros e me vi um genuíno Chuck Norris (esse era o cara, como dizem hoje).
Logo me vi enfrentando as ladeiras de Barbacena. Sei lá que moto era aquela, fiz questão de esquecer. Não gostei dela. Criatura sem originalidade, empinou comigo. Não entendi. Dessa vez o sujeito era tão gordo quanto eu, não podiam me acusar.
Após uma arrancada pouco chucknorriana e uma empinada sem nenhum charme, a moto bateu forte com o pneu da frente num buraco, fazendo meu queixo trombar no capacete do meu amigo, que, com isso, tonteou. Com o queixo doendo e uns dois dentes bambeando, senti aquele gosto típico de “zinabre”. Como conferir se aquele gosto era sangue mesmo?
Ziguezagueamos em velocidade imprópria para dois obesos, por uns duzentos metros pela avenida esburacada onde morava minha tia, que, para piorar o quadro, estava com todas as filhas na varanda vendo o maluco do sobrinho agarrado naquelas coisas que ficam atrás da garupa, balançando a barriga e gritando: ou ou ou ou oooooo... e uma segunda voz sem entonação gritando na frente... eeepaaaaa... seguuuraaaa...
Quem já viu uma moto fazendo isso sabe o fim. Pois não aconteceu.
Sei lá que santo pôs a mão, mas conseguimos ir reto por mais ou menos duzentos metros até fazer uma curva à esquerda depois da praça, rumo ao cenário do carnaval. Mal respirava aliviado por não ter me ralado todo, quando surge outro desafio: uma inexorável ladeira (tudo em Barbacena acaba e termina em ladeira). O domador da fera reduziu para que ela aguentasse subir com a carga dupla de banha.
Acho que ele não sabia guiar não. Na debreada, senti que meu traseiro saiu da moto. Estava no ar. Dava pra sentir um vento diferente no Sul. Vinha descendo um fusca azul, com um adesivo no vidro da frente: ”Só Jesus Salva”. Tentei rezar ao menos a frase, mas, de novo, morro acima, a moto ziguezagueou e empinou. Ou o contrário, sei lá. Para não bater no fusca, que descia peidando como seus similares, meu amigo deixou a moto cair pela primeira vez. E com ela, ele e eu. Ela por cima de mim. Ele por cima dela. Não houve qualquer arranhão. Na moto. Eu ralei o joelho direito. Abriu um buraco pequeno, nada sério. Tirei as pedrinhas de dentro do joelho, meu colega sacudiu a poeira, levantou a moto, contemplou-a maravilhado.
- Nem um arranhão! Perfeito.
- Ugh... agh... q-que b-bom... ui. (As costas doíam, o joelho ardia e eu podia perceber que o gosto de zinabre que senti lá atrás era mesmo proveniente dos meus dois dentes de baixo que bambearam).
- Vamos nessa! Errê... (definitivamente, ele tinha bebido e não devia ter sido pouca coisa).
- Não... já deu por hoje.
- Deixa disso, sô. Nem arranhou, olhaí. (Apontou exatamente para o joelho sadio).
- Não, dá pra ir a pé pra casa, fica tranquilo, segue em paz, vai,  boa sorte com as mulé... ui.
- Tá longe, sô. Sobe aí, o Meia-Lua é logo ali, já-já vamos ver a mulherada.
Tentei resistir, mas o argumento era bom. E vinha a imaginação: era agora um Indiana Jones com ferimentos. Um conjunto sedutor: moto, óculos escuros, dentes esmagados e joelho arranhado. Charme bizarro, por que não?
Subimos outra ladeira mais leve, viramos à direita e lá estava o castelo dos sonhos de todo adolescente da época em Barbacena: aquela rua atolada de gente, um bloco batucando um samba arrítmico, cinquenta desafinados cantando algo como bandeira branca amor não posso mais e um monte de garrafa de cerveja vazia espalhada na calçada. Aquilo era o paraíso.
- Viu, viu? Valeu ou não valeu um tombinho de nada?
- É, mas mulé que é bom não vi ainda. Só tem marmanjo, olha lá.
- Não, tem mulé também... é que a gente tá longe e elas ficam mais dentro do bar.
- Dentro? E por acaso o Meia-Lua tem dentro? Se tivesse mulé já dava pra ver daqui. Roubada, viu...
- Cara chato, você. Vamo lá que eu te mostro se tem ou não tem o que a gente gosta lá.
Arrancou com tudo, o suficiente pra que eu pudesse ver umas meninas até que bem apanhadinhas, pelo menos nos míseros segundos que tive para ver alguma coisa até tudo escurecer.
Nunca me esqueci desses últimos segundos de imaginação. Era agora o Steven Seagal, quase a descer da moto com toda a panca, olhar ao redor, apontar para a loirinha de shortinho e dizer: hello. E as demais suspirando. Pronto. Só vi a loirinha e tudo já saiu do ar.
Claro que todo mundo entendeu. Acordei num hospital e pensei que tinha morrido. Só que, diferente do cinema, não vi nenhum rosto desfocado à medida que acordava. Sabe aqueles rostos enormes, em primeiro plano, entrando em foco aos poucos, aquela voz de caverna...nada. Vi só uma enfermeira saindo e dizendo “pronto, já acordei o dorminhoco”. Acho que ela esfregou alguma coisa no meu nariz e na minha boca, porque meus dentes doíam mais.  Minha imaginação não conseguiu produzir nada cinematográfico. O que escutei foram os berros do meu amigo. E o gosto na boca era de sangue mesmo.
Um enfermeiro com um cotonete gigante de ponta vermelha pintava as canelas do pobre coitado enquanto dois outros tentavam segurá-lo no leito. Aquilo devia doer muito. Como esperneava o homem. E fazia caretas. E gritava. E blasfemava.
Ainda sentia meus olhos doendo de tão arregalados com aquela cena quando um dos enfermeiros virou-se para mim com ar de Coringa do Batman:
 - Arrá... aí está você. Já vamos cuidar de seus ralados. Fica tranquilo.
- Não precisa não... olha, já estou bom!
Tentei sair e mostrar a eles que não precisavam se preocupar comigo, mas cadê. Doeu tudo. Parecia que tudo estalava. Doía costela, cotovelo, joelho.  Foi aí que vi que tudo estava ralado, especialmente o joelho direito, que ganhou mais uns centímetros de profundidade.
- Quieto aí, sô. Num tá vendo que tá todo ferrado? (Virando para os outros) -  Jão, Ademirso, deixa esse aí e me ajuda aqui com esse chupetinha de baleia.
Não gostei da intimidade. Um dia fui contar esse apelido a um amigo de trabalho e tive de suportar gozação por um tempão.
Lá vieram os dois e gentilmente me seguraram enquanto o dono do cotonete gigante embebia o danado num balde escrito “merthiolate”. Não era esse mertiolate incolor e sem dor que existe hoje... era aquele vermelhão mesmo, terror das crianças machucadas e adolescentes ralados.
- Vamo lá, pessoal... é um e dois e... (não me arrisco a fazer aqui a onomatopeia proferida). Acho que foi a dor mais horrorosa que já senti na vida, perdendo só para a primeira cólica renal que tive anos depois. E o enfermeiro se divertia pintando tudo com aquela tinta dos diabos, enquanto outro anestesiava o joelho e já ia dando os pontos necessários e um terceiro pegava outro cotonete de Itu e besuntava meus braços. Na lateral direita, o enfermeiro-mor passava uma atadura para o enfermeiro da lateral esquerda, enquanto o centro-avante enrolava uns cinquenta metros de gaze e esparadrado nos meus joelhos. Encurtando a ópera: me colocaram de pé e eu me vi uma perfeita semi-múmia.
Meu amigo parecia semi-morto no leito e minha vontade era fazê-lo um morto inteiro, mas me contive e saí dali, mancando e agradecendo, pois, apesar de seu notório sadismo, os enfermeiros foram muito profissionais. Fiquei bom. Pelo menos da cabeça, pois nunca mais andei de moto, nem na garupa, nem guiando, nem bêbado, nem são.
O maior vexame foi à noite, ao chegar no stand da Rádio para transmitir ao vivo o desfile das Escolas de Samba. Com crachá da imprensa, era livre para circular por dentro do isolamento. Lá fora, os mortais. Aqui dentro, os imortais da Rádio. Lá estava de volta a minha velha e boa imaginação. Achava-me famoso, importante, envergando o microfone da AM Correio da Serra. Chegava a pensar que o mundo todo estava me ouvindo contar o acidente que me transformara em múmia.
Do lado de fora, algumas mortais meninas riam de mim todo arrebentado. Podia jurar que eram as mesmas que estavam lá no Meia-Lua. E isso não era imaginação.

*Meia-Lua: barzinho da moda na década de 80. Existe até hoje na região de São Sebastião, em Barbacena.